Olho pela janela e apanho as árvores num relance, a uma velocidade
sobre-humana. Pois claro não sou eu que me levo… É este conjunto de pecinhas,
de metal, de ferro, de tuca-tuc, tuca-tuc… é nesta coisa que transporta, nesta
coisa a que chamam comboio que viajo. Estou sentada ao lado do vidro (é janela
aquilo que não se pode abrir?! Para mim este vidro quadrado não toma nome de
janela, pois ao lado dele sinto-me presa, privada do oxigénio exterior! Sim, é
verdade que, sendo um vidro, me permite olhar para lá dele… mas não me permite
respirar, saltar.) e continuo aqui sentada, calma, a escrever. A paisagem varia
em cada levantar de olhos e de cada lado: pinheiros, eucaliptos, oliveiras,
canaviais, solo árido, verdura por todo lado… é isto que eu vejo, é isto a
nossa terra. Mas também é nossa terra o que acabei de apanhar… uma mata escura,
negra, terra cinzenta e preta, árvores verdes em cima mas negras no fundo:
Mortas. Estão simplesmente mortas, sem vida: mortas, sem respirar: mortas, sem
oxigénio estamos: mortos. Mortos. Mortos. Mas mais à frente estão os sobreiros
grandes, imponentes, sem cortiça, mas num espaço verde, vivo, que nos permite
respirar finalmente, que nos deixa, por momentos, esquecer, esquecer o negro e
sorrir. Esquecer o negro a 500m de distância, esquecer a morte a 500m, a uns
segundos! Esquecer o que já não existe… esquecer que desapareci do mapa vital
durante uns segundos, esquecer que árvores e verdes com dezenas, centenas de
anos desapareceram, também, em segundos… e que sim, morreram, mas não pela
ordem natural. Somos seres superiores é? É nisso que somos superiores? Em matar
os do nosso lado?

Sem comentários:
Enviar um comentário