domingo, 26 de janeiro de 2014

janela [2005]

Olho pela janela e apanho as árvores num relance, a uma velocidade sobre-humana. Pois claro não sou eu que me levo… É este conjunto de pecinhas, de metal, de ferro, de tuca-tuc, tuca-tuc… é nesta coisa que transporta, nesta coisa a que chamam comboio que viajo. Estou sentada ao lado do vidro (é janela aquilo que não se pode abrir?! Para mim este vidro quadrado não toma nome de janela, pois ao lado dele sinto-me presa, privada do oxigénio exterior! Sim, é verdade que, sendo um vidro, me permite olhar para lá dele… mas não me permite respirar, saltar.) e continuo aqui sentada, calma, a escrever. A paisagem varia em cada levantar de olhos e de cada lado: pinheiros, eucaliptos, oliveiras, canaviais, solo árido, verdura por todo lado… é isto que eu vejo, é isto a nossa terra. Mas também é nossa terra o que acabei de apanhar… uma mata escura, negra, terra cinzenta e preta, árvores verdes em cima mas negras no fundo: Mortas. Estão simplesmente mortas, sem vida: mortas, sem respirar: mortas, sem oxigénio estamos: mortos. Mortos. Mortos. Mas mais à frente estão os sobreiros grandes, imponentes, sem cortiça, mas num espaço verde, vivo, que nos permite respirar finalmente, que nos deixa, por momentos, esquecer, esquecer o negro e sorrir. Esquecer o negro a 500m de distância, esquecer a morte a 500m, a uns segundos! Esquecer o que já não existe… esquecer que desapareci do mapa vital durante uns segundos, esquecer que árvores e verdes com dezenas, centenas de anos desapareceram, também, em segundos… e que sim, morreram, mas não pela ordem natural. Somos seres superiores é? É nisso que somos superiores? Em matar os do nosso lado?


            Mortos… Estão todos mortos… Estão todas mortas… Vamos todos morrer!!!









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