quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

volubilidade

   aproximei-me de ti ainda molhada e com os lábios a saber a sal.
   despida de palavras
   nua de sentimentos
   apaixonada por ti em breves piscares de inconsciência
   refúgio das tuas liberdades,
   brisa do teu dia quente
  
deixei o sol queimar a pele salgada do mar e de ti
enrolei o corpo pela areia e na espuma envolvente
    e nas ondas que me embalavam esqueci os vestígios de ti.

domingo, 26 de janeiro de 2014

cenas de antigamente

já não há cenas como antigamente.
romances perdidos em tardes de verão
mulheres enamoradas mesmo com todos os 'senão'.
há qualquer momento primitivo em todos os encontros
em todos os silêncios, pausas paradas no tempo
há palavras por dizer, frases a esconder
personalidades a não revelar
pessoalidades a descobrir.

Sim, pessoalidades.
Quem quer saber de personalidades?

somos, fingimos, queremos, vamos, ficamos.
mentimos, 'honestamos', perdemos tudo e conquistamos nada.
porque nada já quer dizer tudo quando nada se espera.

as ilusões foram-se, ficou a realidade.
ninguém mais acredita em cenas de antigamente.

somos. é só isso que interessa, somos sem nada a esconder
queremos e descobrimos uma nova forma de viver.

já não se morre de amor porque já ninguém ama.
ninguém mais acredita em cenas de antigamente.





impossível

Nunca te disse que eras impossível?! És e por mais que queira vais-me sempre ser inalcançavel. Porque eu não vou correr como tu, que tens o caminho feito. Porque eu vou só em passo rápido já que me pode apetecer virar à direita por ser menos bonito que esse trilho. Porque tu nunca gostaste dos meus desvios.
Nunca te disse que me fazes rir como ninguém faz?! E cresce ciúme quando vejo alguém rir  contigo da mesma maneira que eu.

E se te disser agora que tenho saudades do que fomos?! Faz algum sentido?! Não porque nunca fomos nada além de nós próprios na maior pureza do ser. E continuamos a ser eu e tu, próprios de si. Na maior pureza do ser. Mas próprios de si. Não nós próprios.

Mas já te disse que não me quero saber mais de ti?! Não gosto que me faças falta e nunca deixei de não te sentir falta. E acreditei que não me sentes falta. Acreditei e acredito porque te sinto feliz, assim sem mim. E gosto que te sintas assim...


Eu sei... Eu sei que nunca te disse!





restos de ser [2013]

Num momento desapareceste. Arrancaste o melhor de mim, sugaste todos os leves farrapos de ar que me sobraram. Ouviste com dedicação, deixaste-me confessar tudo... e naquele ímpeto de libertação gritei lágrimas que nem sabia existirem. a mágoa secou, a ofegante opressão acalmou... olhei então para ti, nua de segredos, vazia das recordações.
e esperei.
esperei enquanto o teu ser absorvia o calor do meu batimento. esperei enquanto congelava no teu abraço sedento da minha dor. esperei a explosão de volta. esperei o renascer de e para mim.
E num momento desapareceste. Arrancaste o melhor de mim, sugaste todos os leves farrapos de ar que me sobraram.
e deixaste-me.




falsa cor [2013]

Caleidoscópio de cores imensas que a mim rodeiam
Brumas e fantasmas rodeados de fachadas.
Passaste por mim naquele lugar assombrado,
Todo o teu corpo clamou a minha atenção!


Enquanto te aproximavas
Quando por mim passaste
Deixei-me cair no chão frio e imundo
Um riso ao longe me despertou
E tu....
Sem as tuas fachadas!

Olhei-te por completo
Aos teus olhos me parei.
Contemplei a doçura e brilho de outrora
Que não vi, recordei!

E a cara para mim viraste
Sugaste-me a alegria,
Escureceste a minha alma...
O teu olhar era baço, frio!
Os teus olhos negros, cruéis!

Sem forças para ver a realidade.

Uma criança ria enquanto brincava
O lugar ganhara cores!

Tu de frente para mim rias 
e mandavas beijos enquanto te afastavas!
Para os outros continuavas igual
Mas eu 
vi-te





pouco mais que nada [2013]

Sinto uma mão cheia de tudo, um pranto cheio de nada. Embrulho-me no rumo que escolhi, nas loucuras que quis viver. Somam-me os contos e os pontos. As voltas e demoras. As vidas envolvidas em trapos de mim.
Nao é custo de ver ou falar.
O que dói é sentir que nos sumimos aos poucos, que o tempos nos escoa pelos momentos que não nos chegaram ao peito, que os sonhos se vão esfarrapando em esperanças rasgadas que amanhã vai ser melhor. E amanhã vai ser melhor. Amanhã vai ser sempre melhor.
O hoje é que dói. O hoje é que pode não ser melhor. O hoje é que pode ser a tentativa frustrada de realizar mais um momento, o agora é que pode ser mais um ensaio de sermos nós em toda a plenitude. Mas amanhã vai ser melhor. E o ontem não nos deixa cansar hoje, que o cansaço chega aos fracos espasmos em repetição.
A mente é a armadura que abafa o som do coração que sente sempre falta da harmonia, da sinfonia dos batimentos em simultâneo. E é a mente que cansa a muralha, o escudo que nos habitua à falta que dói, à saudade arrancada do corpo, das mãos da vida a dois tempos.
É preciso escavar na força e reconstruir sobre o cansaço. É preciso agarrar o amanhã com garra. É preciso que doa, que volte a doer a alma arrancada e dividida. É preciso voltar a sangrar no rio da saudade. É preciso voltar atrás para lutar por um amanhã melhor e um amanhã igual a hoje.
É preciso cair do precipício e voltar a ter medo.










existência [2010]

Há momentos em que não em sinto, não me existo... hesito num ser sem respostas, com perguntas que vagueiam num mar de pensamentos infindáveis!
Tento responder ao que me pergunto ansiosa por explicação... e desespero num círculo de perguntas às respostas que não chegam... Não existo por vezes... por vezes deixo-me levar e misturar por sentimentos e conversas e imagens em que me absorvo como se fosse oxigénio em falta, vontade crucial de o respirar... de me perder... de não existir... de não pensar... de não sentir...!
E depois tento passar para palavras aquilo que me complica a existência... Fácil é falar... difícil é saber guardar o silêncio daquelas palavras que não podem ser ditas... porque são complexas, porque são palavras que não existem.. como eu... são palavras que têm de ser criadas por quem pensa nelas e no que elas significam! E não consigo falar nem explicar nem demonstrar nem fazer sentir a esfera de problemas em que me  incluo... ao fazer-me perguntas... ao responder com mais perguntas...
Há dias simples.. dias em que não me deixo perder e sobrevivo à não existência... existindo para mim, para os outros, para o mundo... dias em que nada parece impossível e que o tempo ainda se deixa controlar ao longe, de raspão! Mas a maior parte dos dias são não simples, dias em que a concentração se esvai com o tempo que vai passando enquanto me perco de novo em mim.. no amanhã, no ontem... no hoje... no sempre... dias em que pensar no próximo passo dói... dias em que pensar no que devia ser feito, no que podia ter sido feito, no que foi feito, no que não foi feito, me corrói o sentimento!
Não tem havido muitos dias simples... mas não culpo ninguém porque só de mim vem a complicação! Só de mim vem a tentativa ridícula de controlar o tempo que tenho.. e depois o tempo passa e eu desperco-me de mim.. e só depois é que me lembro que acabei de perder tempo... e de me perder mais um bocadinho... 

Não estou assim... sou assim...