domingo, 26 de janeiro de 2014

existência [2010]

Há momentos em que não em sinto, não me existo... hesito num ser sem respostas, com perguntas que vagueiam num mar de pensamentos infindáveis!
Tento responder ao que me pergunto ansiosa por explicação... e desespero num círculo de perguntas às respostas que não chegam... Não existo por vezes... por vezes deixo-me levar e misturar por sentimentos e conversas e imagens em que me absorvo como se fosse oxigénio em falta, vontade crucial de o respirar... de me perder... de não existir... de não pensar... de não sentir...!
E depois tento passar para palavras aquilo que me complica a existência... Fácil é falar... difícil é saber guardar o silêncio daquelas palavras que não podem ser ditas... porque são complexas, porque são palavras que não existem.. como eu... são palavras que têm de ser criadas por quem pensa nelas e no que elas significam! E não consigo falar nem explicar nem demonstrar nem fazer sentir a esfera de problemas em que me  incluo... ao fazer-me perguntas... ao responder com mais perguntas...
Há dias simples.. dias em que não me deixo perder e sobrevivo à não existência... existindo para mim, para os outros, para o mundo... dias em que nada parece impossível e que o tempo ainda se deixa controlar ao longe, de raspão! Mas a maior parte dos dias são não simples, dias em que a concentração se esvai com o tempo que vai passando enquanto me perco de novo em mim.. no amanhã, no ontem... no hoje... no sempre... dias em que pensar no próximo passo dói... dias em que pensar no que devia ser feito, no que podia ter sido feito, no que foi feito, no que não foi feito, me corrói o sentimento!
Não tem havido muitos dias simples... mas não culpo ninguém porque só de mim vem a complicação! Só de mim vem a tentativa ridícula de controlar o tempo que tenho.. e depois o tempo passa e eu desperco-me de mim.. e só depois é que me lembro que acabei de perder tempo... e de me perder mais um bocadinho... 

Não estou assim... sou assim...




medo [2004]

Num dia gelado
Sem nada para me cobrir
Descobri que tinha medo
Medo de ajuda pedir
Não sentia nada
Excepto finas e geladas estacas
Espetadas em minh’alma
Fincadas em meu coração
Queria dizer-to
Queria falar-te
Queria sentir-te


Queria tocar-te…






tempo [2005]

A vida corre devagar no seu leito e eu percorro-a como quem tenha um mapa incompleto e o siga a medo. O que está depois da esquina? Quando acaba? Como acaba? Porque é que acaba? Porque é que não é nossa? Porque é que não nos pertence?
            Os filósofos já tiveram a sua fama, a altura em que todos os respeitavam e ouviam… agora as pessoas correm a cada minute, metidas para dentro e preocupadas só e unicamente consigo mesmas, sem ligar aos outros com quem se cruzam todos os dias e sem ligar àqueles que os acolhem depois de mais um dia stressante…!
            E o tempo que falta? E o tempo que não se fez? Morte vívida? E quando a vida mortifica?     


janela [2005]

Olho pela janela e apanho as árvores num relance, a uma velocidade sobre-humana. Pois claro não sou eu que me levo… É este conjunto de pecinhas, de metal, de ferro, de tuca-tuc, tuca-tuc… é nesta coisa que transporta, nesta coisa a que chamam comboio que viajo. Estou sentada ao lado do vidro (é janela aquilo que não se pode abrir?! Para mim este vidro quadrado não toma nome de janela, pois ao lado dele sinto-me presa, privada do oxigénio exterior! Sim, é verdade que, sendo um vidro, me permite olhar para lá dele… mas não me permite respirar, saltar.) e continuo aqui sentada, calma, a escrever. A paisagem varia em cada levantar de olhos e de cada lado: pinheiros, eucaliptos, oliveiras, canaviais, solo árido, verdura por todo lado… é isto que eu vejo, é isto a nossa terra. Mas também é nossa terra o que acabei de apanhar… uma mata escura, negra, terra cinzenta e preta, árvores verdes em cima mas negras no fundo: Mortas. Estão simplesmente mortas, sem vida: mortas, sem respirar: mortas, sem oxigénio estamos: mortos. Mortos. Mortos. Mas mais à frente estão os sobreiros grandes, imponentes, sem cortiça, mas num espaço verde, vivo, que nos permite respirar finalmente, que nos deixa, por momentos, esquecer, esquecer o negro e sorrir. Esquecer o negro a 500m de distância, esquecer a morte a 500m, a uns segundos! Esquecer o que já não existe… esquecer que desapareci do mapa vital durante uns segundos, esquecer que árvores e verdes com dezenas, centenas de anos desapareceram, também, em segundos… e que sim, morreram, mas não pela ordem natural. Somos seres superiores é? É nisso que somos superiores? Em matar os do nosso lado?


            Mortos… Estão todos mortos… Estão todas mortas… Vamos todos morrer!!!









amor [2005]

         Às vezes as ideias deviam passar directamente da cabeça para o papel… A sério… dava menos trabalho! É que a mim as ideias vêm em palavras separadas… pedaços de papel rasgados… E depois o que custa é ordená-los… é tão complicado!
            Tão complicated como o love… amour… amor! Amar… desde pequeninos que amamos… o nosso pai, a nossa mãe, todos aqueles que cuidam de nós e de quem gostamos… Porque assim nos ensinam: dizem que gostar de pai e mãe é amá-los… que os amamos! Mas ninguém nos ensina o que é aquele amor… amor! Amor é sentir aquele friozinho no estômago quando pensamos naquela pessoa especial? Ou isso é paixão? Não nos ensinam isso, nem nos dizem o que é o amor, como é, o que se sente! Era bom que houvesse uma fórmula, uma lista de sentimentos de estar… enamorada, apaixonada! E já agora um antídoto… porque amar é a melhor coisa do mundo, mas quando não é correspondido ou quando é impossível é a pior… porque num momento estamos felizes por amar e no outro, quando nos apercebemos que estamos a amar para “nada”, a tristeza invade-nos cada nervo, cada gota de sangue que chega ao coração dorido e se revela nas lágrimas…!
            É tão bom e tão complicado estar apaixonada… Mas é isso que nos faz sonhar, que nos traz alento, que nos “auto-estima”, que nos faz sorrir sem razão, que nos torna bonitas(os), que nos faz feliz… nem que seja durante aqueles minutos enormes em que perdemos o olhar e nos pomos a vaguear pela imaginação e pelo que gostávamos que acontecesse, tornando a nossa vida num autêntico filme romântico!


            Eu sei lá o que é o amor… já não sei nada… Afinal o que é isto de amar? Que significa “amo-te”? E quando temos medo de admitir que amamos? Quando sabemos que é impossível? Que ao admitir sabemos que vamos estragar todo o relacionamento que já existe? Temos sempre os melhores conselhos para toda a gente… mas quando chega a nossa vez…!




Mar de fantasias [engano] [2005]

Longe do mundo, longe de ti
Longe do refúgio que me faz sorrir
Longe de onde parti

Não queiras crescer, não queiras fugir
Tudo o que queiras na mão
Esquece, não passa de ilusão

E um dia vais perceber
Um dia tudo se vai fazer entender
Porque o sonho que a gente tem
Não é viver sozinha, sem ninguém

Num passado distante…

Sonhei contigo, quis viver num palácio
Respirar os teus desejos
Sofrer os teus receios
Lembrar os beijos
Sentir os toques primeiros
E o que nunca existiu

Juntos enfrentávamos os monstros
Juntos criávamos defesas…

Lutei, cresci
E agora vivo o aqui
Passado de memórias
Presente de histórias
E um futuro de ilusórias sensações
Arrebata-me o coração

Qualquer coisa
Faz qualquer coisa
Salva-me e leva-me contigo
Como princesa num destino perdido








Cores vazias [2005]

Já não sei sentir
Não consigo respirar
O mundo que rodava comigo
Parou de girar
Olhei o céu infinito
Tentei pintar as cores
O preto escorri, o branco escapou
E o nada ficou

Já fui feliz aqui
Já pintei o céu de azul
Já sonhei e cresci
Pensei no amor

Enegreceu a flor
Entristeci a cor
Não quis ficar assim
Mas o nada ficou

Não gosto de fugir
Não quero chorar
Defendo-me do pouco de ti


Que ainda me fez acreditar