domingo, 26 de janeiro de 2014

Reflexos de entardecer [2006]

Já nada está igual. A diferença entre a noite e o dia é abruptamente grande. Rodopio no girar do mundo, tropeço nos pensamentos de quem passa ao lado. Sentiste a mágoa da nuvem que te ensombrou o caminho? Não, claro que não sentiste. Estremeceste com a frieza com que ela te brindou ao tapar o sol mas não percebeste que era tristeza. Tristeza de indiferença aos outros!
            Sento-me no chão gelado… “Pára!”. Mas o mundo continua a rodar, as pessoas a passar, o dia a nascer, a noite a descer, motores a gritar, folhas a cair, gente a olhar para os farrapos com alguém amontoados no passeio pisado… mas ninguém a parar, para ajudar, para falar, para pensar.
            Não sei quem sou. Conheces-me? O teu olhar meigo respondeu-me na sua doçura silenciosa. Ainda bem que me conheces, assim sinto-me menos perdida nesta loucura que de mim se apodera.
            Não fujas de mim Anjo… Cria-me as ilusões, devolve-me as sensações… Deixa-me sonhar… Não me prendas, não me largues… Ilumina o meu caminho que eu acompanho-te no teu.

            “Acordei-te?” “Estava a sonhar…”





Sentidos [2007]

Senti a vida correr-me nas veias
Senti algo desconhecido
Sabia bem
Sabia a alegria

Sem momentos dissabores
Com uma imensidão de sentimentos bons
Num choro incontrolável de felicidade extrema
Numa gargalhada sonora despreocupada de opinião



Amo...



Saudade [2007]

Manto negro que assombra a tua glória
Céu cinzento sob teu rosto luminoso
Teus olhos tristes escondem-se da própria cor
Nos teus lábios desenha-se a linha da dor

O vazio entranha-se em ti
Desespero sem solução
Desejas que desapareça

Fora de controle
Não sabes o que fazer

Impossibilitas-te de viver
Respirar doloroso
Movimentos agonizantes

A  noite cai
Lágrimas escondidas
Nostalgia
O teu corpo parece-te insuportável

Teu sorriso escondido pelas nuvens
De nada serve a própria vontade
Teu coração é o teu próprio inferno

Num momento
Onda de mal-estar retorna ao mar alto
Tua alma flutua
Instante libertador

Sentimento intenso...


Saudade!





Emaranhado [2006]

Glória vã
Busca infinita das cores
E desespero
E cegueira
E escuridão

Ceguei-me ao teu lado
Esperança tola
Criancice boba

Pedaços de luz

Retirei-me erguida
Jurando de seguida
Curar a dor
Viver sem ardor
Correr sem partida

Ilusões perdidas
Memórias esquecidas
Promessas quebradas

Muralhas estendidas
Frieza desmedida
Tento encontrar-me

Não me ofendas
Surpreende-me
Não me tenhas
Conquista-me
Não me ganhes
Procura-me

Sou carrinho “desguiado”
Sem rumo de destino
Ninguém me vai guiar
Apenas indicar o caminho
e procurar pedaços de coração partido

Não peças desculpa


Ajuda-me a perdoar-te




Gélida [2003]

Está uma noite gelada mas mais linda do que nunca! As estrelas brilham intensamente pois não há nuvens para lhes privar a admiração dos que as vêem! Está tudo tão calmo, tão silencioso! Imagino o oceano para completar a escuridão e a imensidão do universo se fundir com as profundezas marítimas... saboreio o vento árctico imaginando as mensagens que traz... que ou quem mais sentiu uma brisa gelada acariciar-lhe a face? Que montanha petrificou, congelada à sua forte rajada? Que promessas levou? Que mistérios descobriu? Que palavras imperceptíveis estará a sussurrar? Que esperanças aumentou? Quantas desilusões trouxe?
Os ventos estão desatentos ao seu lugar... já não têm guardião... ou talvez tenham! Os ventos são mensagens, mensageiros, destinatários e receptores: eles espalham as palavras e os sentimentos mais nobres e bonitos a todo o lado... eles secam a maior e mais triste lágrima que rola pela face de qualquer ser... eles encorajam os destemidos e assustam os medrosos!
Não há nada que o vento não possa fazer... o vento é diferente em todas as ocasiões: doce, frio, seco, quente, fraco, tempestade, forte, brisa suave... brinca connosco pegando nos cabelos e despenteando-os, ensina-nos a vestir calças levantando-nos as saias, fortalece-nos obstruindo o nosso caminho com empurrões e poeiras! Os ventos são crianças crescidas que governam o mundo, impondo-se a todas as tecnologias existentes e por descobrir! Já existem desde sempre e eternamente hão-de persistir: desde soprar a anciã fogueira a derrubar o melhor satélite, só para brincar, para se divertirem.

O vento abre-nos os olhos mas, sinceramente, os meus estão cansados, desejam a noite, o sonho, a liberdade e o vento está lá fora... anunciando a chegada de frio e brincando com as árvores mais desprevenidas.
            Corre vento ou caminha, faz a tua vontade e entrega todas as mensagens que tiveres a entregar... mas espera pelas respostas e confissões... alguma vida podes mudar! Vai vento e... volta sempre que o destino assim o desejar...








Água [2002]


As gotas de chuva molham o céu resplandecente de estrelas escondidas pelas nuvens. O silêncio da noite é rompido pelo violento sussurrar da água... no entanto o mundo pára maravilhado ao som sincero da fúria dos deuses, do céu, da Natureza... a água purifica o pecado dos homens ignorantes do mal que provocam... a água une o céu á terra e, se nos imaginarmos a subir esse fio líquido, poderemos repousar no meio do paraíso celeste, sem preocupações, apenas encantados com o contemplar do infinito... 




Noite [2003]

Na altura em que o mundo estremece silenciosamente sob os sonhos mais íntimos e sedutores, acordando todos aqueles que não sobrevivem à vida projectada. Enquanto os vivos dormem, sonham e ouvem o subconsciente, os mortos vagueiam pelas mentes abertas, fechadas ou isoladas, lendo-lhes os pensamentos mais guardados, abrindo-lhes as portas a outras mentes... os medos mais obscuros são revelados à escuridão da noite... aos que os querem ouvir, sentir! Mas nem todos os mortos vagueiam à noite... os mortos imortais vagueiam durante o dia nos pensamentos humanos, nas canetas, nos livros... estes mortos perduram nos seus feitos... não precisam da atenção dos adormecidos!